recuperando a autonomia

Recuperando a autonomia

Aos poucos vou recuperando minha autonomia de movimentos.

Sob orientação médica comecei a fazer pequenas caminhadas. Mas, na minha ansiedade em recuperar o tempo de imobilidade, acabei exagerando. Fui com muita sede ao pote. E as conseqüências não tardaram a surgir. Após três dias de caminhadas às quais eu acrescia a cada dia um trecho a mais, eu me entreguei.

Loucura. Loucura, loucura... Passei três dias com dores cruciantes. Evitei analgésicos. Resolvi o problema com repouso e bolsa térmica.

O esforço foi acima do recomendado. Melhor ir mais devagar. A fisioterapeuta também me recomendou prudência.

Na segunda feira pela manhã fui a Marília. Sozinha e dirigindo. Ah, como esta autonomia e liberdade me fazia falta!   Voltar a caminhar em meio ao povo! Sentir-se igual, participando da vida simples do povo.

O burburinho das vozes... Buzinas... Cheiros... Cores... O vai vem das pessoas sempre apressadas. Tudo se mistura  numa estranha melodia , estressante para aqueles que convivem diariamente com ela.   Mas, para mim, naquele momento era música para meus ouvidos.

E a faixa de pedestres então, as tão faladas faixas de pedestres que quase nunca são  respeitadas pelos motoristas. É preciso muito cuidado ao atravessá-las. Hoje em dia está perigoso até andar nas calçadas. Nunca se sabe quando vai aparecer inesperadamente algum irresponsável quase sempre alcoolizado e causando grandes tragédias.

As pessoas perderam o respeito com a própria vida e com a vida do próximo. E os culpados continuam por aí soltos. Respondendo em liberdade. Muitos nem são penalizados.

Mas eu consegui atravessar. Claro que com muita cautela, mas cheguei sã e salva do outro lado da rua. Claro que a gente percebe que alguns apressadinhos parecem irritados quando ao dobrar a esquina precisam diminuir a marcha para esperar aquela senhorinha de bengala terminar de atravessar a rua.  Mas a gente finge que não vê e torce para que nenhum imprevisto venha interromper o curto percurso.

Nossa sociedade ainda não está preparada para conviver com “velhos” na rua. Há ainda muito desrespeito. Embora já se tenha ganho  alguns benefícios, depois do estatuto do idoso, ainda falta muito para que a prática venha a ser uma realidade.. Falta consciência da população e uma maior fiscalização para que os direitos sejam respeitados.

Quando viajei para a Alemanha um tipo de comportamento  que me encantou  e me chamou a atenção foi a naturalidade com que os idosos tem sua vida ativa. É comum ver “velhinhos” sentados na praça à tarde  tomando um café ou um sorvete. Visitam museus, participam de excursões. Admirou-me o respeito com que são tratados em ônibus ou trens ou qualquer outro meio de transporte.

Bem, mas quem sabe um dia nossa sociedade chegue a esse grau de civilidade. Estamos caminhando para isso.

Mas, de todas essas pequenas proezas, o que mais me alegra é poder voltar a fazer parte do grupo litúrgico de minha igreja.  Já não tão limitada posso participar das organizações e entradas das celebrações eucarísticas. Quando proclamo a Palavra de Deus para a assembléia, não apenas faço a leitura, mas sinto-me um instrumento nas mãos de Deus. É Deus usando de minha capacidade verbal para proclamar seus ensinamentos àqueles que ali se encontram sequiosos dela.